Como avaliar um fornecedor de tecnologia sem ser técnico
Duas propostas na mesa, preços e prazos diferentes — e você não tem como julgar nenhuma tecnicamente. Sete perguntas simples revelam o fornecedor sem você entender uma linha de código.
Você não vai conseguir avaliar o código. Aceite isso e siga em frente — não é lá que está a resposta mesmo.
Duas propostas na mesa. Uma custa 80 mil e promete quatro meses. A outra custa 45 mil e promete dois. Você não tem como julgar nenhuma das duas tecnicamente, então julga pelo que dá para comparar: preço e prazo.
E esses são exatamente os dois números mais fáceis de inventar.
Por que preço e prazo não te dizem nada
Prazo em proposta de software não é previsão. É argumento de venda. Quem promete dois meses não sabe que vai levar dois meses — está apostando que você vai escolher o número menor, e que quando o quarto mês chegar você já terá investido demais para trocar.
Preço tem o mesmo problema, ao contrário. O orçamento baixo raramente é eficiência. Quase sempre é escopo incompleto: o que ficou de fora vai voltar como aditivo, e voltar quando você não tem mais alternativa.
A boa notícia é que existe um jeito de avaliar fornecedor sem entender nada de tecnologia. Não é olhar o que ele faz. É ouvir como ele responde.
As sete perguntas
Faça todas. As respostas dizem mais sobre o fornecedor do que qualquer portfólio.
1. “De quem é o código quando terminar?” A resposta certa é “seu”, por escrito, no contrato. Se vier acompanhada de explicação sobre licença, componente proprietário ou plataforma própria, pare a reunião e entenda exatamente o que você está levando — porque pode ser que não seja nada.
2. “O que acontece se eu quiser trocar de fornecedor daqui a um ano?” Fornecedor bom responde na hora: código entregue, documentação, acesso aos servidores, transferência para quem vier depois. Fornecedor que hesita aqui está te dizendo que o plano de negócio dele é você não conseguir sair.
3. “O que não está neste orçamento?” A pergunta mais reveladora da lista. Todo orçamento tem coisa de fora — infraestrutura, licença, manutenção, suporte, migração dos dados antigos. Quem responde “está tudo incluso” ou não leu o próprio escopo, ou está deixando o aditivo para depois da assinatura.
4. “Como eu vou ver progresso antes do fim?” Se a resposta for “entregamos em quatro meses”, você vai passar quatro meses no escuro e descobrir no último dia que entenderam errado. O que você quer ouvir é entrega em ciclos curtos, com algo funcionando para você olhar já nas primeiras semanas.
5. “Quem mantém depois de pronto, e quanto custa?” Software não termina. Ele muda de fase. Se ninguém falou de manutenção na proposta, esse custo existe e vai aparecer — só que como emergência, na hora em que algo quebrar e você não tiver com quem falar.
6. “Como você vai tratar os dados pessoais dos meus clientes?” Você não precisa entender a resposta técnica. Precisa reparar se existe uma. Fornecedor que nunca pensou nisso vai improvisar na hora, e dá para perceber.
7. “Me conta um projeto seu que deu errado.” A melhor pergunta das sete. Quem trabalha há tempo suficiente tem histórias — e quem tem maturidade conta, explica o que aprendeu e segue. “Nunca deu errado” significa uma de duas coisas: pouca experiência ou pouca honestidade. Nenhuma das duas te serve.
Sinais de alerta
- Dá o preço na primeira reunião, sem perguntar quase nada sobre a operação
- Fala em tecnologia, não em problema — se a proposta explica a stack antes de explicar o que muda no seu dia, o foco está errado
- Não pergunta o que você já tem rodando hoje
- Concorda com tudo. Fornecedor que nunca discorda de você não está pensando, está vendendo
- Some entre a proposta e a assinatura. É a prévia do suporte
O que precisa estar no contrato
Independente de quem você escolher, três cláusulas:
- Propriedade do código e dos dados — seus, sem ambiguidade.
- O que significa “entregue” — critério objetivo, escrito antes de começar. Sem isso, “pronto” vira opinião, e a discussão acontece na pior hora possível.
- Como termina — prazo de aviso, transferência de acesso, entrega da documentação. Contrato bom explica o divórcio antes do casamento.
Uma ressalva honesta
Eu sou fornecedor de tecnologia. Tenho interesse direto no assunto deste post.
Então use estas sete perguntas comigo também. Se eu travar em alguma, você aprendeu algo — e o texto continua tendo valido a pena.
Fornecedor bom não tem medo de cliente que pergunta. Tem medo é de cliente que assina sem ler e reclama depois.